Boa Noite - Pam Gonçalves


Alina nunca saiu da asa dos pais. Aos dezoito anos ela era a imagem da boa moça: filha exemplar, uma das melhores da classe, que não curtia noitada... Essas não são características ruins, mas, ao entrar para a faculdade, ela viu uma oportunidade de se reescrever (fugir daquela imagem formada que os outros já tinham) e ir além do que esperavam dela. Alina trocou seu pequeno município por uma república estudantil onde já moravam Manu (a baladeira), Talita (a namorada grudenta) e Gustavo (o gostosão).

Acho que a maioria das pessoas que chega na universidade espera que a vida tome um rumo completamente diferente... Obviamente eu também. Tudo o que eu quero é começar de novo. É nisso que eu penso enquanto encaro a parede de tijolinhos à frente. Só quero deixar tudo pra trás e enfim ser alguém legal.

Eles estavam em cursos diferentes, tinham personalidades diferentes, mas logo adotaram a caloura que estava louca por diversão. Aline se sentiu à vontade, finalmente estava tomando as rédeas de sua vida, mas nem tudo seriam flores. O curso de Engenharia da Computação se mostrou mais difícil que o esperado, mas ela não precisava mostrar que era capaz apenas para si. Sendo um curso composto predominantemente por homens, ela enfrentava muito machismo e precisava mostrar-lhes diariamente que era tão capaz quanto qualquer outro em sala de aula.

Porém não é fácil manter o foco nos estudos com Manu sempre a levando para curtir a noite. Entre um barzinho e outro ela conhece Arthur, que também é estudante da universidade. Aos poucos uma relação bacana começa a surgir entre eles, quem sabe um futuro namoro? Só que Gustavo não gosta nada dessa aproximação. Os garotos não se dão bem, mas não chegam a esclarecer o motivo da desavença, o que deixa Alina sem saber em quem deve confiar.

Boa Noite foi um livro de extremos para mim, provavelmente pela minha alta expectativa em torno dele. Foi com a Pam Gonçalves que eu descobri o que era um blog literário, o conto dela em Amor nos tempos de #likes já mostrava que sua forma de conduzir uma história era boa e, principalmente, ela falou bastante sobre o quão diferente esse livro seria. Além de tudo, é um new adult, um dos meus atuais gêneros literários favoritos. Todos os pontos positivos se confirmaram, já a inovação...



Existia um grande potencial, mas o livro acabou deixando a desejar. Alina levou minha sanidade ao extremo com a sua inocência e falta de realismo. Precisei respirar fundo em algumas situações, porque não consigo acreditar que um jovem do século XXI seja ingênuo a esse nível. Você não precisa ter vivência, mas exitem novelas, filmes, séries, INTERNET... meios para se obter conhecimento não são escassos. Os personagens secundários não contribuíram para o enriquecimento da obra como deveria, pois foram altamente estereotipados. Alguns começaram muito bem e ganharam minha simpatia, enquanto outros desperdiçaram o potencial que tinham ao se perder na história.

A história é clichê, é previsível, mas ganhou muitos pontos comigo ao abordar temas importantes como sororidade, feminismo e estupro. Se você é daquelas pessoas que torcem o nariz para o tema, que acha o assunto batido e não aguenta mais ouvir falar... relaxa. O assunto foi abordado de forma muito criativa e, ao meu ver, natural. É algo em que a maioria das mulheres está ligada hoje em dia. Falando nisso, nunca é demais repetir: a culpa nunca é da vítima.

Eles dizem que só querem nosso bem, mas fica difícil quando não querem nem mesmo pensar no que nós queremos.

A edição do livro está uma gracinha. A capa foi escolhida através de uma votação online e, apesar de naquele momento ter escolhido a outra capa, agora sei que essa foi a melhor opção. Provavelmente muito dos leitores não sabiam disso, mas ela tem tudo a ver com a história. Esse não é um livro jovem adulto descontraído e alegre que a sinopse tenta passar, mas o ar sóbrio da capa equilibra um pouco as coisas. Ela é clean, tanto quanto o seu interior. Os capítulos se iniciam quase no fim da folha, de uma maneira até bonitinha, mas não há muito mais enfeites. Temos uma ou outra troca de mensagem, mas isso é só. As folhas são amareladas, as páginas grossas, mas achei que a fonte estava levemente menor que o normal.

O livro não é perfeito, mas é totalmente válido. O público alvo da Pam são os mais jovens, e como eu gostaria que todos eles pudessem concluir essa leitura! Essa é uma daquelas histórias que falam de igual para igual e ajudam a abrir a mente. Um livro que te inspira a ser um humano melhor.

É o que a cultura do estupro faz com a nossa sociedade, nos cala e nos tolhe os direitos.



Boa Noite - Pam Gonçalves
Galera Record
240 páginas
Livro cedido pela editora
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Andressa Leal
Andressa, Dressa, Dreeh. Carioca e Tricolor. Na casa dos vinte. Futura noiva. Viciada em The Sims, fotografia e livros. Acredita que ter um blog é a melhor forma de juntar sua profissão com suas paixões.

2 comentários

  1. Tenho lido comentários sobre esse livro. E a grande maioria das pessoas que o leram,falam sobre o machismo que predomina ambientes tipicamente masculinos.
    E acredito que a personagem Alina,irá aprender de forma nem tão positiva, que nem tudo é tão perfeito...

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  2. Oi Dreeh,
    Estava curiosa quanto a esse livro, pois a sinopse me chamou a atenção desde o lançamento. Gosto quando são abordados vários assuntos polêmicos que merecem reflexão, e mesmo que sejam tratados de uma forma mais leve, sempre dá pra tirar algo de bom. Li alguns comentários onde dizem que a autora poderia ter ousado mais, ter apostado mais no drama que é o ponto principal da história, pois tinha muito potencial para ser uma história para arrebatar, mas que pena que não é tudo isso. Mas mesmo assim acredito que seja um livro que vale a pena a leitura.
    Beijos

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