Pensei que fosse verdade - Huntley Fitzpatrick

Resenha Livro Pensei que fosse verdade

Uma ilha típica de férias de veraneio. Há alguns meses, algo aconteceu que desestruturou a vida de Gwen. Agora, chegando outro verão, ela terá que rever pessoas que mexeram com seus sentimentos e até mesmo com sua reputação. Mas não vai ser nada fácil, já que Cass é o novo faz-tudo da temporada. Enquanto eles se esforçam pra conviver como se nada houvesse acontecido, segredos os mantém ao mesmo tempo ligados e afastados.

As histórias dos outros são deles. Deixem que as histórias dos outros sejam contadas por eles mesmo.

O resumo do livro vai ser bem pequeno pra eu poder abordar outras coisas durante a resenha, a começar pela gritante diferença social entre o casal. Gwen é filha de uma faxineira com um comerciante local. A princípio sua vida seguirá o mesmo rumo da família, presa à ilha sem perspectiva de futuro. Já pra Cass o emprego é um castigo do pai, já que ele vem de família rica e é dono de uma das maiores casas do local. Esse contraste é a primeira coisa que chama atenção na história.

A família de Gwen também tem seus diferenciais. Em casa moram a mãe, o avô, o primo Nic e Em, o irmão mais novo, cada um com suas peculiaridades. Nic sonha em ingressar na Guarda Costeira, é seu objetivo de vida há tempos e tudo que faz gira em torno dessa conquista. Mas em certo ponto ele se vê limitado pelo romance de anos com Vivian, melhor amiga de Gwen. Sua obstinação com resultados faz com que ele fique cego para algumas coisas óbvias ao seu redor.

Resenha Livro Pensei que fosse verdade

Emory merece um parágrafo todinho! Ele tem algum tipo de deficiência intelectual que o faz necessitar de acompanhamento com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e outros profissionais. Se os 8 anos já carregam tanta ingenuidade, no caso de Em ela se multiplica, conquistando qualquer um que conviva com ele. Foi muito legal ver a ousadia de Huntley ao inserir a discussão de inclusão no meio da história, com um papel tão importante. Em foi responsável por uma das cenas mais fortes, que me fizeram desesperar de vontade de socar o indivíduo.

Os pais de Gwen (especialmente o pai) são o gatilho pra discussão sobre perspectiva de futuro. Exemplos de vida alterada pelas circunstâncias e erros do passado, cada um lidou com sua frustração de uma maneira, com tantas divergências que chegaram a se separar. E eles influenciam muito a forma como a filha se enxerga.

Ele fica olhando para o mar, o horizonte distante, o olhar sombio. Ainda me lembro da Sra. Ellington observando a separação entre mar e o céu, Nic, Viv e eu fazendo o mesmo na noite passada, e pela primeira vez me dou conta de que nenhum de nós está vendo a mesma coisa. Que todos os nossos horizontes terminam em lugares diferentes.

Cass, apesar de clichê, não deixa de ser um bom personagem. Ele é até bem paciente e compreensivo, em especial com Emory - que cenas mais lindas quando eles interagem! Toda a pose de bom moço esconde parte dos seus problemas reais, suas próprias angústias, e muitas vezes ele deixa de receber a devida atenção por camuflar com simpatia e prestatividade as aflições do seu coração.

Interessante é que praticamente todos os personagens secundários tinham histórias paralelas, os próprios conflitos, que desencadeavam novas discussões. Dessa forma foram muitos assuntos explorados na história, com muitas lições e momentos de reflexão.

A edição está maravilhosa. Essa capa linda e colorida (olha a lombada!), o título com detalhe de ora estar por cima do casal, ora estar por trás, a diagramação e os desenhos internos... Tá tudo muito bonito, característica marcante da Valentina.

Resenha Livro Pensei que fosse verdade

Acompanhamos a narração em primeira pessoa, sob o ponto de vista de Gwen. Por um lado é bom porque temos acesso à sua versão, com sentimentos, interpretações e pensamentos. Por outro, é ruim porque não sabemos o que se passa na cabeça do outro, só o que ela enxerga e entende mesmo. Talvez se fosse diferente - terceira pessoa ou narração intercalada - não teria tanto mistério. E aí já não sei falar se iria preferir ou não.

Pra ser sincera, o livro não me conquistou. Foi uma leitura arrastada do começo ao fim, me deixando com um sentimento horrível, já que cada vez que eu lia as opiniões de outras pessoas que participaram do Vamos Ler Juntos? tinha mais elogios à obra. Eu me esforcei muito pra terminar achando que quando finalmente os segredos fossem revelados a história ia dar uma melhorada. Mas não rolou. A impressão que tive foi que a autora quis fazer tanto drama em torno do que aconteceu pra causar aquelas mudanças na vida de Gwen que acabou enrolando demais.

Esse tempo todo eu pensei que o obstáculo entre nós era o que ele tinha feito comigo. Que eu não podia perdoá-lo nem perdoaria, por ele ter sido aquele cara. Quando o tempo todo estava ignorando o que eu mesma tinha feito com ele. Não queria admitir que tinha sido aquela garota.

Os temas abordados são interessantíssimos - amadurecimento, julgamentos precipitados, pitadas de feminismo, decisões, insegurança -, mas faltou um quê a mais pra me fazer apaixonar. Comparado ao outro livro da autora, Minha Vida Mora ao Lado, apesar de explorar uma realidade muito mais próxima e consequentemente mais fácil de me identificar, pra mim esse ficou bem aquém. Uma pena, porque tinha potencial.

Resenha Livro Pensei que fosse verdade

Pensei que fosse verdade - Huntley Fitzpatrick
Valentina
336 páginas
Livro cedido pela editora
Onde comprar: Submarino | Americanas | Saraiva | Amazon
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

7 comentários

  1. Giulia!
    Muito bom quando um livro aborda vários assuntos interessantes e ainda coloca uma inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência.
    Um drama acompanhado de um romance complicado é muito bom de ser lido, ainda mais quando traz reflexões.
    “Demore na dúvida...E descubra a sabedoria que insiste em se esconder na ausência de palavras.”(Padre Fábio de Melo)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de SETEMBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  2. Tive sentimentos ambivalentes durante a leitura da sua resenha. Eu não conhecia o livro, mas com as coisas que você foi descrevendo sobre a diferença social, peculiaridades de alguns personagens, problemas intelectuais, enfim... Logo pensei "eita, esse livro é cheio de drama, tenho certeza que vou gostar", até mesmo relevei o fato de ser narrado em primeira pessoa - não sou de esconder que sou mais fã de história em terceira pessoa. No entanto, quando você disse que o livro não te conquistou e que a leitura foi arrastada... Já desisti dele imediatamente. Me vi totalmente decepcionada. Quem sabe um dia eu confira para ter a minha própria opinião?
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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  3. Oi, acho bem interessante quando o autor não foca apenas nos personagens principais,mas também nos secundários.
    Outro fato que acho importante abordar é o da inclusão de pessoas com algum "problema".E tenho certeza se eu vier a ler esse livro vou me emocionar com o garotinho Emory.
    "Eles estão preparados para o mundo,mas o mundo não está preparado para eles"...
    Ouvi alguém falando essa mesma frase e sei que é muito verdadeira.
    Sei ,pois meu filho mais velho é "especial" :)

    Bem,achei uma pena que o livro não tenha te agradado tanto quanto imaginou.Histórias maçantes demais nos deixam até sem vontade de descobrir qual é o tal segredo dos personagens.
    Bjs.

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  4. Oi Giulia,
    Quero muito conhecer a escrita da Huntley Fitzpatrick, mas acho que vou acabar escolhendo Minha Vida Mora ao Lado para ler primeiro, pois as avaliações desse livro me empolgaram mais.
    Gostei muito de saber que esse livro não é apenas um romance de adolescente, mas que traz também, alguns pontos de reflexão. Amo quando os personagens secundários são tão importantes quanto, isso sempre deixa a leitura mais envolvente.
    Que pena que o livro não te conquistou, porque essa história tinha muito potencial mesmo. Quando tiver a oportunidade de ler, vou iniciar a leitura sem muitas expectativas, assim não me decepciono muito.
    Beijos

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  5. Só tinha ouvido falar da autora pelo Minha Vida Mora ao Lado mesmo, que faz parte da minha listinha de desejados desde uma resenha que vi da Pam Gonçalves. Achei a capa linda demais, e a história em si me lembrou de Mentirosos, por envolver adolescentes e dramas... Uma pena que a sua leitura não tenha sido tão boa, mas se eu tivesse a oportunidade adoraria ler, achei que pode ser bom, apesar dos apesares.

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  6. Olá, gosto muito quando um livro traz mais do que um simples romance, mas quando proporciona ao leitor uma experiência única, onde amadurecimento de personagens, escolhas erradas e a influência da família podem ser os maiores vilões na trama, falar com tanto discernimento e envolver cada palavra é o que me faz querer um livro, e você me fez querer esse!

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  7. Gostei de o autor ter criado um personagem como Emory e de também contar a vida de personagens secundários. Estou ansiosa para conhecer Em e sua vida! Achei interessante a história abordar temas como esses, porém acho que vou ter a mesma opinião que você. E fico em dúvida se leio ou não, por causa disso.

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