Over The Rainbow - Milly Lacombe e outros


Título: Over The Rainbow
Autor(a): Milly Lacombe, Renato Plotegher Jr., Eduardo Bressanim, Maicon Santini & Lorelay Fox
Editora: Planeta
Nº de páginas: 224
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Americanas | Cultura
Nota:

E se a Cinderela se apaixonasse por uma garota, e não por um príncipe encantado? Ou se os irmãos João e Maria, homossexuais assumidos, enfrentassem a ira de uma madrasta religiosa que só pensa em curá-los? Ou, ainda, se a Branca de Neve, abandonada numa cidade bem distante de sua terra natal, fosse acolhida por... sete travestis?

Pois pare de imaginar se os contos de fadas fossem revisitados e recebessem uma roupagem LBGTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Abra este livro e confira as clássicas histórias da infância de milhões de pessoas contadas sob a ótica de cinco autores que fazem parte desse universo, representado pelas cores do arco-íris. Ou melhor, contos de fadxs, como reza a nova norma de gêneros.

Quando soube do lançamento de Over the Rainbow, preciso dizer que surtei. E não foi pouco. Sou apaixonado por contos de fadas e esse livro, tendo esses contos revisitados com uma temática de inclusão, parecia algo esplêndido. Resolvi solicitar e assim que pude, me joguei na leitura. Vou falar um pouquinho de cada conto, individualmente, e apontar minha opinião sobre eles.

Mais do que Manteiga com Mel, de Milly Lacombe

Nesse conto, temos a versão da autora de Cinderela e conhecemos Catarina, uma adolescente que vive com a madrasta e as meias-irmãs em São Paulo. O pai da menina morreu há alguns anos e deixou sua herança para a filha, mas ela só pode mexer quando completar dezoito anos. Enquanto isso, é a madrasta quem administra os bens e torra tudo com roupas para ela e para as filhas, deixando Catarina sempre de lado. A jovem não gosta de se arrumar, prefere jeans e tênis a saia e salto, o que só aumenta o ódio da madrasta por ela. Além disso, Catarina esconde um segredo: ela é lésbica e completamente apaixonada por Helena, sua meia-irmã mais velha. A vida de Catarina entra em colapso quando a madrasta diz que encontrou um pretendente para Helena, um jovem milionário, e quer que a filha se case com ele. Sem querer perder seu amor, Catarina acaba envolvendo-se em uma trama repleta de segredos. Quando Bernardo vai jantar na casa da família, seu interesse se dá por Catarina, ao invés de Helena. Catarina acha que essa é sua chance. Se ela se envolver com Bernardo, ele não poderá ficar com Helena. Mas será que essa história vai dar certo?!

Esse conto foi o que achei mais fraco em comparação aos outros. Milly tem uma escrita fluida, mas alguns aspectos da narrativa me incomodaram, como a quantidade de vezes que Catarina molhou a calcinha só de olhar para Helena, achei um tanto forçado. Fora isso, a autora se saiu bem e inseriu uma personagem fantástica na história, que entrou para minha lista de favoritas do livro, a travesti Perdição, que representa a fada madrinha de Catarina. Adorei a participação dela que, mesmo um tanto estereotipada, rendeu muitas risadas.

O Amargo da Intolerância, de Renato Plotegher Jr.

Aqui temos a releitura de João e Maria. Os dois irmãos são homossexuais e lidam muito bem com isso, obrigado. Eles vão para festas, se envolvem com pessoas e são apaixonados por doces. O pai deles, um senhor carpinteiro, tem orgulho dos filhos e os apóia acima de qualquer coisa. Mas com a madrasta, a coisa não é bem assim... Rose é uma mulher muito religiosa e não mede esforços para tornar a vida dos enteados um inferno. Ela implica com o fato das crianças serem homossexuais e tenta fazer com que o marido as coloque nos eixos, como se ele pudesse obrigá-los a serem "normais". Após uma enorme discussão, o pai de João e Maria termina seu relacionamento com Rose e põe a mulher para fora de casa. Transtornada, Rose promete que vai se vingar e João e Maria mal perdem por esperar. Eles só não sabem que essa vingança virá na forma de uma velha senhora que mora no prédio e tem muito talento para fazer doces...

Adorei a forma como Renato construiu seu personagens. João e Maria são ótimos. Leais, educados, gentis e atenciosos, os dois mostram a cada dia para a madrasta que o fato de serem homossexuais é só mais um traço de suas personalidades, não algo que os define como mal-educados ou satânicos. E o pai deles... MEU DEUS. Que homem maravilhoso. Ele aceita os filhos e não tolera que as pessoas os desprezem por serem quem são, a ponto de mandar a própria mulher para fora por ter os destratado. O que me incomodou nesse conto foi o final. Achei que Plotegher se perdeu ao desenvolver o desfecho e ficou tudo um tanto insosso. Mas no geral o conto é muito bom e vale bastante a leitura.

Atormentado, de Eduardo Bressanim

Acho que esse conto é o pelo qual eu estava mais ansioso. Tem como não amar A Bela e a Fera? Pois então. Aqui vamos conhecer Rodrigo, um jovem estudante de jornalismo, que acha que o amor não é para ele. Rodrigo terminou um longo relacionamento e agora só quer focar nos estudos. Ele tem uma prova importante na faculdade e quer estudar, mas sua melhor amiga o convence a ir a uma festa com ela. No local ele conhece Bruno, um garoto com quem tentou conversar em um aplicativo de relacionamento e foi ignorado. Os dois se beijam durante a noite, mas vão embora sem se falar mais. Rodrigo até tenta contato, mas Bruno fica distante. A verdade é que Bruno tem um grande trauma acerca de sua homossexualidade. Quando ele completou dezoito anos, não aguentou mais esconder esse segredo dos pais e se assumiu por telefone. Na manhã seguinte, descobriu que os pais morreram em um grave acidente de carro após sua ligação, e se culpa por isso. Ele não quer se envolver com ninguém além de alguns amassos, mas Rodrigo desperta nele coisas que ele nunca julgou possíveis. O que vai acontecer nessa relação?

Esse é o conto que tinha mais potencial e fiquei um pouco frustrado. A escrita de Bressanim é ótima e esse foi o conto que li mais rápido. O problema é que a construção deixou um pouco a desejar. Não consegui desenvolver uma empatia pelos personagens e achei Rodrigo um tanto melodramático demais para o meu gosto. Porém, a relação que ele construiu com Bruno, apesar das dificuldades do parceiro, foi tão bonita que não consegui evitar de me apaixonar também. E gostei do final desse coto, achei que Bressanim bateu numa tecla interessante e me surpreendeu.

O Loirinho do Joá, de Maicon Santini

Rapunzel, jogue suas tranças! Aqui vamos conhecer Augusto, um jovem herdeiro de uma indústria da comunicação. Augusto é festeiro e compra tudo aquilo que o dinheiro de seu pai pode proporcionar, desde que esconda sua homossexualidade dos outros. Ele assumiu-se gay para os pais e a reação deles não foi nada boa. Com suas longas madeixas louras, Augusto aproveita as viagens dos pais para dar festas e convidar os garotos com quem deseja ir pra cama. Numa dessas festas, transa com um ator de uma das séries do canal do pai, que acaba descobrindo e fazendo um escarcéu. Cansado da represália da família, Augusto pega todo o dinheiro que tem e vai morar uns tempos na Nova Zelândia. Lá ele começa a trabalhar como guia turístico e em uma de suas rotas, conhece Zack. Zack acabou de terminar um relacionamento e saiu da Austrália para a Nova Zelândia em busca de merecidas férias. Ele e Augusto se envolvem de uma forma mágica e o brasileiro está determinado a mudar-se para a Austrália e viver essa paixão. Só que para entrar no país dos cangurus, ele precisa de um visto e retorna ao Brasil para providenciá-lo. Fazendo os exames necessários, uma bomba cai no colo de Augusto: ele descobre ser soropositivo. E agora?

Tirei o chapéu para o Maicon. Esse foi de longe o meu conto favorito e poderia passar horas aqui dizendo o porquê, mas vou tentar resumir. Maicon criou personagens fantásticos, inseriu a falta de aceitação da família (o que não tinha acontecido ainda nos outros contos, com exceção das madrastas, mas enfim) e tocou num tema muito importante: a AIDS. Muita gente ainda associa essa síndrome com os homossexuais, como se eles fossem os culpados pela existência da doença, e fiquei com certo receio quando vi que Santini estava indo por esse caminho. Porém, o autor me surpreendeu e usou o conto para tocar em diversas questões sociais e no preconceito acerca da doença. Além disso, foi tudo tão real e o final tão tocante que não consegui não me apaixonar. Amei mesmo!

A Ressurreição de Julia, de Lorelay Fox

Esse é sem dúvida o conto mais diferente do livro. Enquanto os outros autores tocaram na questão da homossexualidade, Lorelay usou a história de Branca de Neve para abordar outro tema: a transexualidade. Aqui vamos conhecer Júlia, uma menina transgênero que sonha em fazer sua cirurgia de readequação. Sua madrasta morre de inveja dela, porque Júlia consegue ficar a cada dia mais linda e feminina e ela está ficando velha. Assim, Lorena arma um plano para se livrar da enteada. A maléfica promete que no seu próximo aniversário, dará para Júlia a cirurgia que ela tanto deseja, o que deixa a jovem garota muito contente. Só que ao invés de realizar o sonho de Julia, Lorena dá um comprimido para a garota e a abandona em uma cidadezinha, sem nada além de um caderno. Júlia não sabe onde está e nem como voltar para casa, não sabe o número de ninguém para pedir ajuda. Assim, ela passa a viver nas ruas, mas o fato de ser transgênero não é bem visto por ali e um outro morador de rua, com medo por ela, lhe indica um local onde ela encontrará pessoas como ela e poderá encontrar abrigo. Determinada, Júlia parte em busca desse local e encontra uma casa, mas ninguém parece estar lá. O local está uma bagunça e Júlia usa seu tempo de espera para limpar tudo e acaba adormecendo no tapete. Ao acordar, encontra sete travestis e conta sua história. As meninas, lideradas pela bela Melissa Montovany, aceitam acolher Júlia na casa, desde que ela ajude com as tarefas do lar. Todas trabalham à noite e precisam descansar pela manhã, então Júlia ficaria responsável em deixar que isso acontecesse sem problemas. Melissa sente pena da situação de Júlia e decide fazer uma festa de aniversário para a menina, para que ela se anime com a vida outra vez. Só que um presente misterioso pode colocar tudo em risco.

Lorelay Fox é uma drag queen e, como sou apaixonado por drags, estava curioso com seu conto. Como disse, ela abordou um tema diferente do dos seus colegas e foi muito bem nessa questão. O problema é que sua escrita me incomodou um pouco. O conto começa parado, praticamente sem diálogos. Eu peguei o livro pra ler em uma madrugada e talvez por esse ser o último, o sono já estava falando mais alto, mas foi um tanto difícil me envolver com o início da obra. Porém, da metade para o final, me encantei pela Júlia, assim como pela Melissa e as outras travestis. Lorelay mostrou as dificuldades que elas passaram apenas por serem quem são, mas também nos apresentou pessoas que as aceitam e não julgam. O final foi belíssimo, acho que o melhor de todos os finais, e o conto só não foi o favorito por conta das ressalvas que citei. Esse conto creio que seja o mais importante do livro, para abrir as mentes acerca dessa questão ainda tão tabu.

No geral, Over the Rainbow é um livro muito bom, que com certeza recomendaria para pessoas com a mente mais fechada. Acho que a obra cumpre bem sua proposta e mostra a que veio. Adorei!
Leonardo Amarante
18 anos, gaúcho, estudando biomedicina. Vidrado em exatas, mas apaixonado pelos livros desde que se conhece por gente. Blogueiro nas horas vagas, tem paixão pelo que faz, e acredita fielmente que foi destinado à literatura, só falta ela perceber isso também.

7 comentários

  1. Oi Leo, eu não conhecia esse lançamento e pelo que li em sua resenha trata de temas bem polêmicos, inclusive AIDS, o que deve tornar a leitura interessante.

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  2. Nossa nunca imaginei esses contos de fadas com essa interpretação. Muito diferente do convencional. parece ser um livro bem polêmico. Não sei se eu leria, sou mais leituras lights, romances Mamão com açúcar kkkk

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  3. Leonardo que fofura de livro é esse? Eu odeio de coração (pode isso?) livros com temática de releituras de contos de fadas porque acho sem graça e/ou tentados a ser um adulto meio hot, e nunca me convencem. Mas pelo que entendi aqui são muito mais que isso, é um levante de diferenças que deveriam ser igualdade nesse nosso mundo preconceituoso, adorei e já quero para mim, para minha mãe, para minhas amigas e todo mundo ler, além disso o título ficou aqui em minha cabeça como a música de mesmo nome, e cantei baixinho enquanto lia sua resenha. Porra (desculpas os palavrões) adorei!

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  4. Sinceramente não sou fã de releituras.Apesar de perceber que fizeram os contos bem diferentes dos originais...
    Bem,mas para quem curte,esse livro é perfeito!

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  5. Olá Leonardo,
    Quando vi esse lançamento, Over the Rainbow já me chamou a atenção. Também sou apaixonada por contos de fadas, então imagina a curiosidade para ler essas releituras escritas de uma forma um tanto inusitada, cheia de imaginação e sem barreiras. Confesso que agora não estou tão empolgada como no inicio, mas mesmo assim pretendo ler se tiver a oportunidade, mas não vou criar muitas expectativas.
    Beijos

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  6. Não sou muito fã de releituras de conto de fadas, mas confesso que esses contos me interessaram demais. Que ótima sacada desses autores, muito boa mesmo! Tenho certeza que vou amar a leitura, me divertir com a travesti Perdição e muito mais HAHA.
    Me interessei mais pelos contos baseados em João e Maria, muito por conta da atitude pai desses meninos, que vai contra a cultura patriarcal em que vivemos, e também gostei bastante do último. Com certeza entrou para minha lista de desejados! Beijos

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  7. Oi!
    Gosto muito das releituras dos contos de fadas pois elas acabam deixando a historia mais complexa e mais perto de uma realidade, por isso quando soube desse livro fiquei bem interessada, adorei saber que termos os contos de fadas mas com uma mensagem de inclusão e gostei muito dos contos achei as historia bem legais e fiquei curiosa para poder ler !!

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