O Livro de Memórias - Lara Avery

Ser oradora da turma, sair da cidade pequena onde mora e cursar Direito na faculdade de Nova York. Esses eram os sonhos de Sammie, tudo muito bem planejado pra que nada saísse errado. Ela só não contava com uma rasteira do destino: muita nova começou a desenvolver Niemann-Pick C, uma doença genética rara que matou a tia. O colesterol ruim se acumula no fígado e no baço, causando obstruções no cérebro. Como consequência, ficam comprometidos a memória, a coordenação motora, a cognição e até mesmo o funcionamento do corpo.

Os sintomas chegaram aos poucos, quase imperceptíveis, mas, depois de descoberta a causa, ela entendeu que precisaria registrar sua vida para que a Sam do futuro pudesse ler caso realmente se esquecesse das coisas. Foi assim que surgiu o livro de memórias, ela digitava os principais acontecimentos, seus sentimentos e algumas explicações. Conforme o estágio avança, fica cada vez mais difícil pra Sam manter os relatos. Ela sabe que vai ficar limitada pelo próprio corpo, mesmo assim não se deixa desanimar ou desistir de seus planos minimamente calculados, pelo contrário, faz outros para possibilitar que continue progredindo. Sam aceita que seu corpo falhe, mas não quer deixar a mente inteligente ser vencida.

Se sou a única da família a acreditar que posso me recuperar, então tenho que me afastar da negatividade dos outros... Eles estão se preparando para o pior. Como o Sr. Chomsky diz, o otimismo gera responsabilidade. Não estou me iludindo: sei que estou doente. Mas não vou me preparar para o fracasso.

Esse é um sick-lit, mas não é na mesma pegada de A Culpa é das Estrelas, primeiro porque o foco não é romance, segundo pela postura da personagem. O clima depressivo de uma doença fatal é substituído pelo otimismo da radiante Sammie. Ela é bastante racional ao lidar com seu problema e não fica cheia de sentimentalismo no seu livro, que nem dá muito pra ser chamado de diário. Ao invés de se lamentar, Sam busca maneiras de continuar proativa e de superar todas as barreiras.

Ela é um tanto nerd, mas mesmo assim consegui me identificar um pouquinho com sua paixão por livros, a preferência por digitar a escrever (se fosse pra fazer um diário hoje, certamente optaria pelo teclado ao invés da caneta) e o senso de humor recheado de sarcasmo.

Por que não posso definhar lentamente e andar por aí em uma cadeira de rodas automática, declamando meu brilhantismo por meio de uma caixa de voz computadorizada, como Stephen Hawking?

Um ponto positivo foi o envolvimento da família, o apoio oferecido, mostrando a importância do vínculo. Em contrapartida o triângulo amoroso foi meio desnecessário e até forçado. Sammie começa o livro com uma paixão platônica por Stuart, outro nerd da escola, mas do nada aparece Cooper, um colega de infância que virou maconheiro. Mas talvez a intenção da autora tenha sido nos levar a enxergar além das primeiras impressões, já que Coop acaba se revelando bastante preocupado com Sam.

Confesso que foi preciso um pouco de insistência para concluir a leitura, as primeiras páginas foram um pouco enfadonhas. Mas depois de um tempinho eu consegui mergulhar na história e curtir a personalidade cativante da protagonista, que dá uma lição de superação.

Se continuarmos estudando a história de nossos obstáculos, temos a oportunidade de banir o que há de tóxico no mundo. Teremos um propósito. Sejam os obstáculos pessoais, como uma doença, ou algo maior, como a injustiça social. Uma vez que passamos por cima deles, abrimos lugar para a esperança.

Lara Avery merece meu aplauso por falar de algo tão forte e perturbador do jeito que fez. Não escondeu, não romanceou, não enrolou. De uma forma sutil, bem-humorada e inteligente, nos apresentou uma doença desconhecida e conduziu a momentos de reflexão. E fica a dica: se você for do time das manteigas derretidas, prepare o lencinho. ;)


O Livro de Memórias - Lara Avery
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392 páginas
Livro cedido pela editora
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Nota:
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

3 comentários

  1. Oi Giulia,
    Estava aguardando resenha desse livro, pois quando vi o lançamento fiquei interessada, mas confesso que não estava criando muitas expectativas. Gostei da personalidade da protagonista, sempre encarando a vida com otimismo, nunca desistindo, gostei dessa garota. Uma pena esse triângulo amoroso, bem desnecessário mesmo. Pretendo ler um sick-lit até final do ano, mas já tenho um livro escolhido, mas vou adicionar O Livro de Memórias na lista para futuras leituras. E sim, sou do time das manteigas derretidas hahaha
    Beijos

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  2. Não conhecia nada sobre essa doença. E o que entristece é saber que pessoas na vida real passam por isso.
    Voltando ao livro, dá muito pena em imaginarmos uma garota com todo um futuro pela frente e descobrir que tem uma doença tão triste assim!
    Sinceramente não sei se leria esse livro. Mesmo sabendo que a personagem não se deixa vencer pelo pessimismo. :/

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  3. Oi!
    Realmente e bem triste quando a pessoa vai perdendo sua identidade, ainda não conhecia essa doença, mas achei a forma otimista da Sammie diante de uma doença tão severa inspirador e acaba fazendo nos leitor refletir muito, se tiver oportunidade quero muito ler esse livro !!

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