Um Dia de Cada Vez - Courtney C. Stevens


Título: Um Dia de Cada Vez (Faking Normal #1)
Autor(a): Courtney C. Stevens
Editora: Suma de Letras
Nº de páginas: 231
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Americanas | Fnac | Cultura
Nota:

Alexi Littrell era uma adolescente normal até que, em uma noite de verão, sua vida é devastada. Envergonhada, a menina começa a se arranhar e a contar compulsivamente uma tentativa de fazer a dor física se sobrepor ao sofrimento que passou a esconder de todos. Ela só consegue sobreviver ao terceiro ano do ensino médio graças às letras de música que um desconhecido escreve em sua carteira. As canções parecem adivinhar o que o coração de Alexi está sentindo.

Bodee Lennox nunca foi um adolescente normal, mas agora é o menino que teve a mãe assassinada pelo pai. Em seguida, ele vai morar com os Littrell, e Alexi acaba descobrindo que o Garoto Ki-Suco, o quieto e desajeitado menino de cabelos coloridos, pode ser um ótimo amigo.

Em Um dia de cada vez, Alexi e Bodee, ao mesmo tempo em que fingem para o resto do mundo que está tudo bem, passam a apoiar um ao outro, tentando viver um dia de cada vez.

Dois adolescentes traumatizados por circunstâncias adversas à própria vontade. Duas histórias marcadas por dor e sofrimento que afetaram o convívio social e o bem-estar psicológico de cada um deles. Duas vidas que se encontram na solidão.

Alexi foi estuprada no último verão e está se culpabilizando por ter "permitido". O fato de ainda conviver com seu agressor piora a situação, pois pensa mais nele do que em si mesma. Para amenizar o sofrimento emocional, ela se agride fisicamente, arranhando o próprio pescoço e se isolando de todos para que ninguém perceba. Mas um menino nota.

O poder de Bodee está no jeito como ele me decifra, vê através de mim e, depois, entende a verdade por trás da fachada. Ele é o cara que pode passar direto pela Casa de Espelhos na primeira tentativa.

Talvez seu olhar mais atento seja porque ele também está sempre isolado. Bodee é o Garoto Ki-Suco, cada dia vai pra escola com o cabelo de uma cor diferente, colorido pelo pó do suco artificial. Ele cresceu vendo a mãe ser agredida pelo pai bêbado, até o dia que ele acaba a estrangulando e deixando os dois filhos órfãos.

Como forma de honrar a amiga, a mãe de Alexi convida Bodee a morar com eles nessa fase de readaptação. Um menino silencioso, que não quer incomodar e tenta se fazer de invisível, em pouco tempo vai mudar a vida de um dos integrantes da família com um olhar que nenhum deles foi capaz de ter.

Minha mãe e meu pai pensam que convidaram Bodee para nossa casa para ajudá-lo, mas a verdade é que ele está me ajudando.

Mal me recuperei de Raio de Sol, levei outra pancada com esse. Foi ótimo ler dois livros seguidos que me desestabilizassem totalmente, porque eu vinha numa batida de livros românticos demais, pra distrair a mente, e esses me colocaram pra pensar, me fizeram lembrar que a literatura vai muito além de entretenimento.

Resumindo a leitura em uma palavra: angustiante! Ler sobre temas dolorosos sempre me fazem sentir dor junto com a personagem. No caso de Alexi, seus relatos me comoveram, sua narração me colocava dentro dos seus pensamentos. Às vezes eu parava e tocava meu próprio corpo nos lugares que ela citava como se esse gesto pudesse aliviar uma dor que eu sentia por tabela, ou numa tentativa fracassada de protegê-la de passar por isso de novo.

Foi desesperador acompanhar a inércia da família Littrell presa no mundo cor-de-rosa sem conseguir perceber a dor que a caçula sentia. Os pais se deixavam enganar pelas camuflagens que ela se esforçava pra fazer; a irmã mais velha gostava de estar por cima, mesmo que pra isso precisasse humilhar Alexi. Ninguém foi sensível à mudança tão significativa de uma noite de verão.

Sempre que estou com Bodee, parece que eu sou feita de vidro. Rímel, blush e sorrisos falsos nunca o enganam. Talvez seja pelos anos vendo a mãe esconder seus medos do mundo. Mas não estou preparada para compartilhar.

Minha empatia com Alexi foi muito maior porque o livro foi narrado sob sua perspectiva, mas a visão que ela tinha do Garoto Ki-Suco já me fez querer protegê-lo dos males a que foi submetido. Nenhuma pessoa merece vivenciar violência doméstica, temer o próprio pai e muito menos saber que a mãe foi assassinada covardemente tão perto de si. Soma-se a isso o isolamento social na escola, parte por sua própria reclusão, parte pela ignorância dos colegas. Imagine o cenário triste que foi a vida de Bodee.

Ele é complexo. Mais adolescente que homem, por fora; mais homem que adolescente, por dentro.

Talvez a solidão e a necessidade de amadurecer rápido fizeram com que ele tivesse uma visão diferente do ambiente ao redor. Ele enxerga as pessoas com outro olhar, consegue penetrar o escudo e chegar à alma. Foi assim que percebeu o problema por que Alexi estava passando. E, mais do que manter o sigilo, ele soube se aproximar e conquistar a confiança dela para que aos poucos conseguisse ajudá-la.

Ao mesmo tempo, o relacionamento deles também serviu pra preencher algumas lacunas vazias na vida de Bodee. Foram o complemente perfeito um pro outro no tempo certo, unidos pela dor. Provavelmente se o estupro ou o assassinato não tivessem acontecido eles não virassem amigos, mas às vezes as chacoalhadas da vida que colocam as coisas no lugar.

Um dia de cada vez foi uma leitura arrebatadora, que me fez ficar grudada ao livro até o fim, sem conseguir dormir mesmo precisando descansar, com o coração acelerado a cada nova revelação, esperando por um grito de libertação da Alexi e Bodee.

Eu só passei duas semanas da minha vida com Bodee. Mas agora, sentada com ele no meu forte, sei que essas duas semanas foram como se Deus entrasse na minha vida em carne e cabelo colorido com Ki-Suco. O evangelho de acordo com Bodee Lenox. Sua segurança. Sua proteção. E amor.

Não sei o que é a dor de quem vivenciou um estupro, mas consegui sentir verdade nas palavras de Alexi, creio que por conta de a própria Courtney ter compartilhado sua experiência através da personagem. Virar a última página e encontrar a nota da autora foi o que faltava pra eu ficar destruída. Ela usou a literatura pra ajudar outras pessoas, e suas palavras me deixaram arrepiada. A partir de sua vivência, ela aconselha e incentiva outras pessoas (não apenas meninas) a superarem e buscarem ajuda. Os números, órgãos públicos e sites indicados nessa parte são os brasileiros; não sei se foi uma exigência da autora ou uma iniciativa da Suma, mas obrigada a quem fez isso.

Há uma prequel entitulada The Blue-Haired Boy que narra um episódio da vida de Bodee sem conexão com Alexi. Estou muito curiosa, mas infelizmente a Suma não traduziu. Se você ler em inglês e quiser conhecer mais desse menino fantástico, corre lá na Amazon que tá baratinho.

Prepare o coração, permita-se ser sacudido e encare o incômodo de sair da zona de conforto e imaginar a dor de alguém que pode estar do seu lado. Faça um favor a você mesmo e se entregue a esta leitura.

Eu amo o lugar que Bodee ocupa em minha vida. O quarto descendo o corredor e subindo a escada. Jantar em vez de um encontro para jantar. Uma mão para segurar em vez de lábios para beijar. Ela é minha fortaleza, meu santuário. E eu não vou fazer nada para estragar isso.
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

4 comentários

  1. Nossa,quando VI a capa do livro não imaginava que a leitura era tão densa,forte e emocionante.
    Assim como também fiquei com muita pena dos dois personagens!
    Os dois tão jovens e passando por situações extremamente difíceis...
    Mesmo sabendo que também vou me emocionar demais e ficar angustiada,gostei da sugestão dessa leitura.
    E pretendo ler em breve.

    ResponderExcluir
  2. Então esse livro é bem mais profundo que sua capa e sinopse demonstram e acho que vai ser interessante acompanhar essa história, e saber que a autora usou o livro pra relatar e ajudar a partir de suas próprias experiências me fez ter mais vontade de ler o livro, que nem é tão longo (231 páginas), e pelo que li em sua resenha vai valer a pena ;)

    ResponderExcluir
  3. Oi Giulia,
    Acho que já tinha visto esse livro em algum lugar por aí, mas confesso que não dei a atenção merecida, infelizmente. Sério, que livro! Amo livros que me tiram da minha zona de conforto, com dramas pessoais e familiares que nos remetem a várias reflexões e a enxergar o mundo de outra forma. Também estou saturada de livros fofos e românticos, eles têm o seu devido valor, mas agora preciso de uma leitura arrebatadora e angustiante como essa, com certeza vou tentar ler logo, mas antes pretendo ler Raio de sol.
    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Nossa, deve ser um livro bem tocante. Personagens que passaram por coisas muito ruins, tentando descobrir um sentimento bom, um no outro... Vai entrar pra minha lista!

    ResponderExcluir

Que prazer em ter você aqui! Entre e sinta-se à vontade.
Se gostou do post (ou não), deixe um comentário. Sua opinião é muito importante pra melhorar cada vez mais o blog. =)