Outro Dia - David Levithan

Esta resenha pode conter spoilers do primeiro livro.
Todo Dia


Título: Outro Dia
Autor(a): David Levithan
Editora: Galera Record
Nº de páginas: 322
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Fnac
Nota:

Um dos mais inovadores autores de livros jovem adulto e o primeiro a emplacar uma trama gay na lista do New York Times, David Levithan retoma a sua mais emblemática trama em "Outro Dia". Aqui, a já celebrada — com várias resenhas elogiosas — história de "Todo Dia" é mostrada sob o ponto de vista de Rhiannon. A jovem, presa em um relacionamento abusivo, conhece A, por quem se apaixona. Só que A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Mas embarcar nessa paixão também traz desafios para Rhiannon. Todos eles mostrados aqui.

Todo dia foi meu primeiro contato com David Levithan, um livro que eu devorei em 1 dia, mas esperei demais do final e acabei de frustrando. Quando soube que ia ter outro livro com a mesma história sob o ponto de vista da Rhiannon, claro que surtei pra ler. E ainda bem que ele escreveu esse!

A vida de Rhiannon não é lá essas coisas. Seu namorado Justin não é exatamente maravilhoso - pelo contrário, está longe disso pelo jeito como a trata -, mas ela mantém a esperança de que um dia ele mudará e será o cara ideal. E esse dia chega. Tudo bem que no começo do dia ele parece distante, até passa direto por ela, mas depois a convida pra matar aula e fugir pra praia. Ela aceita, ainda que com um pé atrás com essa novidade.

O sempre fechado Justin está diferente, até parece que está fazendo um teste com ela, mas com o passar do dia ela deixa a desconfiança de lado e se entrega ao melhor dia do relacionamento deles. Em seu coração, a esperança do começo de uma mudança definitina, mas no dia seguinte tudo voltou ao normal - ele indiferente, distante, frio. Rhiannon não se abate, tenta motivá-lo e lembrá-lo do dia incrível que tiveram, mas ele parece que nem lembra.

Aí sim ela entrega o jogo, confusa com o dia e a reação atípica de Justin em meio a tanta indiferença. Sua vida continua a mesma até que numa festa ela conhece Nathan, o primo gay de seu amigo Steve. A conexão é imediata, eles conversam muito sobre vários assuntos e prometem manter contato via e-mail. E assim o fazem, continuam se falando bastante até que Rhiannon descobre um pequeno detalhe: Steve não tem um primo como Nathan.

Nossa protagonista tá mal de menino confuso, hein?! Claro que ela vai tirar satisfação com Nathan, e é aí que surge A. *faz o coraçãozinho* Sem definição de gênero, A é um ser que todo dia acorda em um corpo diferente e vive sua vida por 24 horas. Já percebeu que naquele dia da praia era ele no corpo de Justin, né? Então... Não foi só ela que sentiu algo especial, A também fixou mexido. Ele resolveu ir atrás dela, ela acreditou em toda essa história surreal. Mas é complicado amar alguém que não tem corpo, aparência, endereço, nome.

E se elx acordar no dia seguinte no corpo de uma menina? E se elx acordar no corpo de uma pessoa de atitudes contrárias ao que Rhiannon acredita? E o pior: elx estará por perto quando ela precisar?

Fiquei meio sem saber o que esperar da narrativa sob o ponto de vista de Rhiannon. E o primeiro choque foi ver o absurdo do relacionamento abusivo dela com Justin. Suas visões de mundo e personalidade ficam distorcidas, ela era apática, completamente submissa, isolada dos antigos amigos e fazia tudo em prol dele, ainda que fosse contrário à sua própria vontade. Cara, se doeu ler, nem gosto de imaginar quão doloroso deve ser viver isso.

- Ele também pode ser incrivelmente fofo - emendo - E eu sei que, bem lá no fundo, sou tudo pra ele. Aqueles olhos não me perdem de vista.
- Bem lá no fundo? Isso parece acomodação pra mim. Você não deveria ter que ir tão fundo para ser amada.
[...]
- Ele não me bate nem me maltrata. E não me trai. Dá pra você se ouvir? Se esses são seus padrões: Ei, ele não me deu um soco, então deve estar tudo bem!, isso me assusta! E me faz pensar que, em algum momento, você usou essas justificativas. Ah, está muito ruim agora, e ele tem sido um horror... mas, pelo menos, não está me batendo. Tenha um pouco de respeito por você mesma, está bem?

Sua vida mudou depois de A, porque ela ampliou sua percepção e aos poucos foi se libertando da prisão que Justin lhe impunha (ou que ela se autoimpunha). Os sentimentos de A e todo o seu esforço para vê-la mostraram-na que ela é sim bonita e desejável, que o problema não está nela, mas sim em seu namorado idiota que não a valoriza. E aí, gente, mulher empoderada é outra história! Claro que tem uma reviravolta aí!

E uma pequena pausa pra falar do babaca do Justin. David pesou a mão aqui, porque trouxe um personagem beeeeeeeeeeeeem intragável. Ele concentra todos os preconceitos possíveis, claramente machista, racista e homofóbico. Mas sua presença tão marcante não é à toa, porque é justamente expondo de modo tão claro suas atitudes que o livro vai trabalhando o tema e passando grandes lições.

Mas voltando a falar de por que eu não sabia o que iria encontrar aqui... Todo Dia foi um livro que me deixou pensando por muito tempo. São pontos de vista completamente diferentes, o primeiro contato que tive com literatura LGBT, ainda que bem de leve, uma narrativa que apresenta diferentes indivíduos sem julgamento de valor. Rhiannon é uma pessoa normal, e como toda pessoa normal tem suas preferências. Aí vamos pensar no cenário ideal, ela conhecendo A no corpo de Justin, ela revendo A no corpo de Nathan, ela encontrando A no corpo de outro menino bonito... Mas e quando ele vem no corpo de menina? Ou quando o menino não é bonito? Dessa vez houve sim a questão dos estereótipos, mas achei que a intenção do autor foi criticar, pois ela criava uma barreira e não conseguia se abrir para receber o amor de A quando ele não estava de acordo com seus padrões. Foi o retrato do processo que a pessoa passa quando está tentando desconstruir.

As palavras são uma parte do problema. O fato de existirem palavras diferentes para ele e ela, dele e dela. Eu nunca tinha pensado nisso antes, em como isso é segregatório. Talvez se houvesse um único pronome para todos nós, não ficaríamos tão presos a essa diferença.

Apesar de ser a mesma história, David conseguiu trazer novos elementos e não deixar cair na repetitividade. Daria pra ler esse sem ter lido Todo Dia, mas certamente não teria o mesmo impacto, por isso não recomendo. E esse autor consegue me impactar, mesmo eu não concordando com ele em alguns pontos (pra quem não sabe, sou cristã, feminista, defendo a igualdade, mas não concordo com certas coisas, dentre elas a homossexualidade). São muitas as frases marcadas, que a gente lê, para, cola o post-it, reflete e só depois volta a ler.

A exemplo do primeiro livro, a Galera manteve a capa original e fez uma boa diagramação. Maaaas dessa vez errou feio errou rude na revisão. Atenção aí, editorial!

Tenho uma pitadinha de esperança de uma continuação, por causa do final do livro. Ele é meio aberto, me deu a mesma sensação de angústia do primeiro, mas tem aquela pontinha solta que dá brecha pra uma sequência. O que nos resta é torcer e esperar.
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

Um comentário

  1. Estou doida pra ler esse livro, curto muito a escrita do David Levithan, parece ser bem emocionante e cada resenha que leio dele me deixa ainda mais ansiosa em conferi essa história.

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