Sejamos todos feministas - Chimamanda Ngozi Adichie


Título: Sejamos todos feministas
Autor(a): Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 24
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Nota:

O que significa ser feminista no século XXI? Por que o feminismo é essencial para libertar homens e mulheres? Eis as questões que estão no cerne de Sejamos todos feministas, ensaio da premiada autora de Americanah e Meio sol amarelo."A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente."Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente da primeira vez em que a chamaram de feminista. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma. Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: Você apoia o terrorismo!. Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são anti-africanas, que odeiam homens e maquiagem começou a se intitular uma feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens.Neste ensaio agudo, sagaz e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para pensar o que ainda precisa ser feito de modo que as meninas não anulem mais sua personalidade para ser como esperam que sejam, e os meninos se sintam livres para crescer sem ter que se enquadrar nos estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que conta com mais de 1 milhão de visualizações e foi musicado por Beyoncé.

Sensacional!
Não tem outra palavra pra descrever essa mulher, que me chamou a atenção lá atrás na faculade com o discurso "o perigo de uma história única". Anos depois, tive contato com outro de seus discursos, dessa vez como leitura, e resolvi guardá-lo para abrir a Semana da Mulher. Os posts dessa semana serão todos voltados pra nós, mulheres.

Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.
[...]
A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: "Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar." Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar.
Sejamos todos feministas é um conclame a todos - homens e mulheres - para mudança de paradigmas, costumes e valores da sociedade mundial. Esse discurso foi publicado em português pela Companhia de Letras e está disponível para download gratuito em todas as lojas. Ele é bem curtinho, dá pra ler de uma vez, mas recomendo não o fazer com pressa, pra refletir sobre o que está sendo dito e comparar com nossas atitudes e pensamentos. Eu marquei vários trechos e tive uma árdua tarefa de selecionar só alguns para compartilhar com vocês. Vale lembrar que não estou defendendo uma ou outra vertente do feminismo, só estou opinando sobre esse texto em si, ok?

A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

Ao contrário do que muita gente pensa, feminismo não é só queimar sutiãs, deixar de se depilar e usar maquiagem, ir nua para um protesto ou odiar os homens. É isso TAMBÉM! Mas, em resumo, é algo bem mais simples e bonito: um movimento de luta para emancipar as mulheres e tornar iguais os direitos de ambos os gêneros. Naturalmente você vai encontrar mulheres defendendo o movimento de maneira agressiva, afinal, assim como em todo grupo, sempre há os mais exaltados e os mais calmos. Mas não se engane em achar que, só porque falo com educação e paciência, não tenho o mesmo sentimento de revolta que elas.

A questão de gênero, como está estabelecida hoje em dia, é uma grande injustiça. Estou com raiva. Devemos ter raiva. Ao longo da história, muitas mudanças positivas só aconteceram por causa da raiva.

Que fique bem claro que feminismo não é o contrário de machismo, a saber: estrutura da sociedade que supervaloriza o gênero masculino e oprime o feminino. "Ah, mas eu não sou machista nem feminista, sou humanista". Jura? Você sabe mesmo o que é humanismo? Vamos lá: humanismo é uma filosofia moral com base na razão humana e na ética, colocando o ser humano acima do sobrenatural, de deuses, de dogmas religiosos, da pseudociência e das superstições. Tem nada a ver com o que a gente tá falando, né? Então dá pra ser humanista e machista, humanista e feminista. Entendidos? Ok então!

Algumas pessoas me perguntam: "Por que usar a palavra 'feminista'? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?" Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral - mas escolher uma expressão vaga como "direitos humanos" é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.

E - pasme! - o feminismo não beneficia só as mulheres. Além de empoderá-las, o feminismo também liberta homens de expectativas e estereótipos. Quem determinou que rosa é cor de mulher e azul é cor de homem? Quem disse que chorar não é coisa de macho? Aliás, por que tanta necessidade de se provar a masculinidade? Percebe como o machismo atinge os homens também?

Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser "benquistos".
[...]
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são.

É algo que está arraigado na sociedade e faz mal a todos. E quando eu falo que faz mal, falo em feminicídio, violência doméstica, estupros, piadas que ferem a autoestima. São milhares de mulheres morrendo física e emocionalmente todos os dias vítimas de machismo. Inúmeras mulheres sendo subjugadas e subvalorizadas, deixando de contribuir com a sociedade por falta de oportunidade. Talentos e potenciais sendo escondidos ou pouco explorados.

Falar é fácil, eu sei, mas as mulheres só precisam aprender a dizer NÃO a tudo isso. A realidade, porém, é mais difícil, mais complexa.

Se fosse simples mudar isso, não haveria tanta luta como há. De shortinhos na escola a vagas em concursos/empregos, são muitos os jeitos de se camuflar machismo na sociedade, às vezes tão naturalizado que vira absurdo questionar, falta de bom senso, maluquice... E mais uma vez as mulheres saem de loucas, pervertidas, sem louça pra lavar. Tá na hora de mudar o discurso, minha gente!

Estou tentando desaprender várias lições que internalizei durante a minha formação, mas às vezes ainda me sinto vulnerável quando me deparo com expectativas de gênero.

"Mas a Fulana acha que não é machismo, não se sente ofendida." Que pena! Ela ainda precisa desconstruir e desapegar de conceitos que foram internalizados durante anos, a vida toda. O machismo é sutil e nos foi ensinado a aceitar e calar. Aprendemos que precisamos nos comportar como uma mocinha desde novas e somos culpadas por todo mal que acontece com nossos corpos e nossos filhos. Algumas mulheres ainda não se descobriram ou preferem continuar aceitando a opressão como algo natural. Uma pena! Cabe a nós, que nos desconstruimos diariamente, continuar propagando a mensagem e tendo empatia com essas mulheres.

Algumas pessoas dirão: "Bem, os homens, coitados, também sofreram". E sofrem até hoje. Mas não é disso que estamos falando. Gênero e classe são coisas distintas. Um homem pobre ainda tem os privilégios de ser homem, mesmo que não tenha o privilégio da riqueza.

Claro que lutar pela igualdade de gêneros não exime nossa responsabilidade de lutar por outras causas. Racismo, intolerância religiosa e homofobia são só exemplos de como as diferenças existem, oprimem e matam. Uma luta não invalida a outra nem deve ser maior ou menor, mas é preciso considerar que causas diferentes necessitam de abordagens diferentes.

O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero.

O feminismo luta pra que você seja livre pra fazer suas escolhas. Que você seja livre pra escolher casar, ter filhos, se dedicar ao emprego ou ser dona de casa. Que você possa decidir usar maquiagem ou não, se depilar ou não, andar de salto alto e usar saia ou vestir macacão e tênis. Que você tenha liberdade sem julgamentos ou culpabilização. Que sejamos mulheres livres, a começar por nossos próprios grilhões.

Decidi parar de me desculpar por ser feminina. E quero ser respeitada por minha feminilidade.


Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

Um comentário

  1. Já estava bastante interessada em ler esse livro só pela sinopse, e agora depois de ver essa resenha fiquei ainda mais ansiosa em conferi esse livro que parece mesmo ser sensacional!

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