Quarto - Emma Donoghue


Título: Quarto
Autor(a): Emma Donoghue
Editora: Verus
Nº de páginas: 350
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Americanas
Nota:

Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la.

O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.

Como proporcionar uma infância feliz para uma criança cujo mundo mede onze por onze pés? Essa é a missão da Mãe, que aos dezenove anos foi sequestrada e enclausurada num Quarto. Ali ela viveu os piores momentos de sua vida, mas também teve sua maior alegria: o nascimento de Jack. Pra ele o mundo se resume a um pequeno quarto com 4 Paredes, um Piso, um Teto, uma Banheira, uma Cama, uma Mesa e mais algumas coisas; seus brinquedos são a Cobra de Ovos, o Labirinto de rolos de papel higiênico colados com durex e o que mais a imaginação permitisse; seu único contato com o Lá Fora são as poucas visitas do Velho Nick (o sequestrador) e os momentos em frente à TV, mas pra ele são apenas imagens de planetas de mentira.

Nada assusta a Mãe. Menos o Velho Nick, talvez. Quase sempre ela só o chama de ele, eu nem sabia o nome pra ele até ver um desenho sobre um cara que chega de noite, chamado Velho Nick. Eu dou esse nome ao de verdade porque ele vem de noite, mas ele não parece o cara da TV, que tem barba e chifres e outras coisas. Uma vez perguntei à Mãe se ele é velho e ela disse que ele tem quase o dobro da idade dela, o que é bem velho.

Depois de 7 anos presa, 5 deles com a responsabilidade de um filho, e algumas tentativas fracassadas de fuga, a Mãe pensa em outro plano pra escapar daquele terrível local. O desespero pode levar a hipóteses nunca antes pensadas, possibilidades arriscadas. Mas e se der errado? E pior: se der certo, será que ela e Jack estarão preparados para o que os espera Lá Fora?

No quarto eu ficava seguro e o Lá Fora é que assusta.

Se a história fosse narrada em terceira pessoa, certamente já seria angustiante. Mas essa sensação por vezes foi ampliada ou minimizada pela brilhante ideia da autora de contar tudo na voz do Jack. Algumas frases sem sentido e palavras erradas estão presentes, o que é mais do que normal para uma criança de 5 anos. Seus pensamentos são ao mesmo tempo simples e confusos simplusos, confimples. Mas o mais genial foi mostrar toda a sua ingenuidade em detalhes - hipérboles, nenhuma noção de tempo, interpretações ao pé da letra, imaginação fértil... A única forma de divisão do livro são as 4 partes, mas dentro delas os relatos são corridos, sem pausas, as narrativas se misturando na percepção de uma criança, que viveu milhões de anos em poucos dias e contou de uma vez só a sequência antes de dormir > sono > manhã.

- Para o Jack não foi uma provação, era só como as coisas eram.

Apesar de Quarto ser um livro muito sensível, com uma carga emocional forte, lemos com a leveza do olhar infantil. Temos o entendimento das cenas muito além do que está escrito - mais cruel, mais dolorido, mais aflitivo -, uma espécie de eufemismo causado pela ingenuidade, e em muitos momentos me coloquei no lugar da Mãe e até mesmo de Jack. Não tema sustos, períodos de grande tensão ou respiração presa, pense que você fará um passeio pelo pior dos cenários de mãos dadas a uma criança.

E que criança! Jack é aquela criança capaz de contar a pior notícia de um jeito meigo, te consolando por algo que ele está sofrendo. Ele é sonhador, inventor, amigo, amor, filho, protetor... único! Não dá pra explicar a sensibilidade que ele tem, só mesmo lendo pra entender.

Além de nos emocionar, Emma também levanta questionamentos importantes sobre maternidade, escolhas e criação. Também discute sobre julgamentos de pessoas que insistem em palpitar sobre situações que nunca viveu. Se tocou fundo meu coração, imagino como a leitura é muito mais intensa feita por mães e pais que já carregam as dores e delícias de ter um filho.

O que fez o Menino Jesus começar a crescer na barriga da Maria foi um ano que desceu voando que nem um fantasma, só que um fantasma superlegal, com penas. A Maria ficou toda surpresa e disse “Como é possível?”, e depois “Está bem, assim seja”. Quando o Menino Jesus pipocou da vagina dela no Natal, ela colocou ele numa manjedoura, mas não para as vacas comerem, só para elas deixarem ele aquecido com seu bafo, porque ele era mágico.

Não posso falar muito por medo de soltar algum spoiler e, mesmo que pudesse, não iria querer, pra te deixar ter as mesmas surpresas e emoções que tive. Tenho plena convicção de que não consegui expressar metade do que senti durante a leitura. Mas não posso deixar de te pedir pra ler. Ainda pretendo ir ao cinema, até porque já ouvi boas críticas à adaptação e ganhou o Oscar de Melhor Atriz, mas nada substitui a voz de Jack em sua cabeça, a inocência do sr. Cinco Anos que enxerga a vida com olhos puros. Por algumas horas, entre no Quarto e se entregue à vida de Jack.
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

4 comentários

  1. Oii!

    Giu, sua resenha está linda! Estou acompanhando diversos comentários sobre a obra e o filme ainda mais agora sobre o oscar e estou com muita vontade de assistir. Acho, que como você disse, nada supera a leveza de um olhar infantil até mesmo nos piores momentos. Isso que me motiva a ler com mais sede ainda.

    Gostei da curiosidade que você aguçou em mim <3 espero ler e assistir ao filme em breve!

    Beijinhos

    ResponderExcluir
  2. Ahhh, eu assisti o filme e achei O MÁXIMO! O ator que interpretou Jack foi incrível e a atriz que fez a mãe tbm, inclusive ganhou oscar de melhor atriz. Tô louca pra ler o livro, geralmente são melhores que os filmes, imagina o que vou sentir então já que no filme me envolvi pra caramba e foi super intenso. Até meu namorado que é resistente à dramas achou o filme muito bom e quer ler o livro. É uma história que te faz refletir toda sua vida...

    ResponderExcluir

Que prazer em ter você aqui! Entre e sinta-se à vontade.
Se gostou do post (ou não), deixe um comentário. Sua opinião é muito importante pra melhorar cada vez mais o blog. =)