Depois de você - Jojo Moyes

Esta resenha contém spoilers do livro anterior.
Como eu era antes de você



Título: Depois de você (Como eu era antes de você #2)
Autor(a): Jojo Moyes
Editora: Intrínseca
Nº de páginas: 320
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Americanas | Casas Bahia
Nota:

Quando uma história termina, outra tem que começar.

Com mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, Como eu era antes de você conta a história do relacionamento entre Will Traynor e Louisa Clark, cujo fim trágico deixou de coração apertado os milhares de fãs da autora Jojo Moyes.
Em Depois de você, Lou ainda não superou a perda de Will. Morando em um flat em Londres, ela trabalha como garçonete em um pub no aeroporto. Certo dia, após beber muito, Lou cai do terraço. O terrível acidente a obriga voltar para a casa de sua família, mas também a permite conhecer Sam Fielding, um paramédico cujo trabalho é lidar com a vida e a morte, a única pessoa que parece capaz de compreendê-la.
Ao se recuperar, Lou sabe que precisa dar uma guinada na própria história e acaba entrando para um grupo de terapia de luto. Os membros compartilham sabedoria, risadas, frustrações e biscoitos horrorosos, além de a incentivarem a investir em Sam. Tudo parece começar a se encaixar, quando alguém do passado de Will surge e atrapalha os planos de Lou, levando-a a um futuro totalmente diferente.

Livros que mexem com a gente são os mais difíceis de serem resenhados. E esse tá num nível de dificuldade tremenda. Se você não leu o primeiro livro, pessoa em que mundo você vive? Corre lá e pega pra ler antes de o filme estrear. Provavelmente você já deve ter visto algum spoiler, mas caso contrário não quero ter essa responsabilidade se bem que a sinopse do segundo faz isso por mim. Então já aviso que não tenho como falar da história desse sem mencionar o maior dos spoilers do primeiro. Esclarecida a situação, vamos encarar a árdua missão.

Um ano e meio após a morte de Will e de ter saído da cidade natal, Lou ainda sofre com sua partida. Raiva, tristeza, mágoa, uma mistura de sentimentos que a limitam a uma vida monótona e sem emoção. Ela viajou um tempo por Paris até decidir comprar um apartamento em Londres com o dinheiro deixado por Will. Quase não dorme, odeia o trabalho, sua rotina consiste em sobreviver dia após dia. Até que em mais uma noite insone no terraço, ela cai do parapeito e só não morre porque bateu num toldo e teve a queda amortecida por uma espreguiçadeira.

Algo doía dentro de mim em noites como essa, em que havia vários casais passeando nas ruas e pessoas risonhas saindo dos pubs. Algo primitivo me dizia que eu estava no lugar errado, que estava perdendo alguma coisa.
Era nesses momentos que eu mais me sentia deixada para trás.

Claro que ela não morreu, se não o livro acabava sem graça, né? Mas o estrago foi grande: costelas e bacia quebradas e um bom tempo de recuperação. Mas o acidente não teve apenas seu lado ruim. Ela foi forçada a se reaproximar da família e de quebra ainda conheceu o paramédico Sam. Mas antes de falar deles quero destacar o Grupo Seguindo em Frente. Sabe aqueles grupos de autoajuda? Pois é, esse é pra pessoas enlutadas, que não conseguem superar a perda de um ente querido. Cada um com seu luto, todos compartilham do sentimento de não conseguir se livrar da dor, da culpa, do medo de amar de novo, da sensação de que a vida acabou. Ali, num grupo tão heterogêneo, Lou faz suas primeiras amizades depois de muito tempo de reclusão social.

Você não me deu uma vida, deu? De jeito nenhum. Só acabou com a minha antiga. Desfez em pedacinhos. O que eu faço com o que sobrou?

Quem se lembra dos Clark no primeiro livro? Uma família odiosa, pra não dizer pior. Todos interessados única e exclusivamente no dinheiro de Lou, sem se importar com sua felicidade. Mas o susto e o medo de ela ter tentado se matar fizeram com que a olhassem de forma diferente. Os pais passam a ser mais atenciosos, até por causa da dúvida da causa do acidente. A irmã tenta entender o luto e no seu "jeitinho" consegue dar uns solavancos na mesmice de Lou. Agora Jojo mostrou um lado mais humano e menos materialista da família.

Era uma sensação estranha conseguir exiergar meus familiares como seres humanos.

E tem o médico de tirar o fôlego e curar tristezas. Sam é um cara que me conquistou de cara e deu vontade de socar a cara de Lou nos momentos em que ela tinha dúvidas sobre encarar um relacionamento com ele ou não. E como não gostei muito do final do primeiro livro estava torcendo pra ela ser feliz agora. Só que ela parece fugir da felicidade incansavelmente.

E os Traynor? Esses aí já tinham sua história delineada. O pai se divorciou pra ficar com a ruiva mais nova, a irmã continua morando longe, a mãe se reduziu a uma sombra do que era. E aparece mais um personagem importantíssimo, que eu vou ter que me segurar desesperadamente pra não falar nada sobre, mas que foi uma baita surpresa e uma sacada genial da Jojo.

Ok, Will, pensei. Se essa foi sua ideia de me jogar em uma nova vida, com certeza acertou em cheio.

A introdução é um pouco longa. A autora dá uma pincelada na história do primeiro livro, resume os 18 meses pós-Will e apresenta poucos novos personagens, que trazem informações inéditas. Vemos alguns conflitos, mas o assunto do clímax não aparece de cara, você não sabe aonde a história vai dar. Mas depois que entende o caminho a ser trilhado fica desesperado pelo final.

Se no primeiro livro a discussão girava em torno de liberdade de escolha, suicídio assistido e superação de limites, aqui vemos uma gama de assuntos trabalhados. Já falamos sobre o luto e suas consequências e relacionamento familiar, mas o que mais merece destaque é o feminismo extremamente presente na história. A casa dos Clark vira de pernas pro ar, com direito à interrupção de depilações, viagens independentes e recusas dos almoços de domingo. E a Jojo acertou em cheio ao mostrar como o "patriarcado opressor" não gosta nem um pouco do empoderamento feminino e as implicações disso na dinâmica conjugal.

- Você fez isso. Sua mãe e eu éramos perfeitamente felizes antes de você começar a dizer que ela não era. Tudo vai de mal a pior por aqui. Não posso assistir à televisão sem que ela resmungue "sexista". Nunca sei como ela vai agir no outro dia.
- Então acho que você podia fazer o almoço. Surpreender mamãe quando ela voltar da aula de poesia.
- Fazer o almoço de domingo? Eu? Faz quase trinta anos que estamos casados, Louisa. Não sou eu que faço o maldito almoço. Ganho o dinheiro e sua mãe prepara o almoço. Esse é o trato! Foi para isso que me candidatei. Onde vamos parar se eu estiver aqui de avental e descascando batata num domingo? Isso é justo?

Sim, Sr. Clark! Isso é mais que justo!

Aos cinquenta e seis anos, minha mãe começou a sair da concha, a princípio hesitante como um caranguejo, mas agora, pelo visto, com um entusiasmo cada vez maior. Ela passou anos sem sair desacompanhada, satisfeita com o pequeno domínio que era nossa casa de três quartos. Mas ter passado algumas semanas em Londres depois que sofri o acidente a obrigara a sair da rotina e despertara uma curiosidade adormecida habia muito tempo sobre a vida além de Stortfold. Ela começara a dar uma olhada nos textos feministas que Treena recebera no grupo feminista na faculdade e, após ler The Women's Room ficara tão chocada com as semelhanças que encontrou com sua própria vida que passou três dias se recusando a cozinhar.

Outro ponto importante é o debate entre liberdade da mulher e sororidade (pra quem não sabe é a irmandade entre mulheres, a empatia, o respeito às decisões de outra mulher). Até que ponto devemos deixar de viver nossas próprias vidas pra ajudar outra mulher que está desamparada? Até que pontos devemos emitir nossa opinião e confrontar uma mulher mesmo sabendo que seus valores são diferentes? São assuntos delicados sim, mas que ajudam a (des)construir conceitos e no mínimo plantam a sementinha do feminismo no coração de cada uma.

A narração continua sendo na voz de Lou, mas tem um único capítulo narrado em terceira pessoa mostrando acontecimentos cruciais para a compreensão do desenvolvimento da história que não foram presenciados por ela - claro que tem a ver com a pessoa misteriosa.

A capa segue o padrão da primeira e a gente agradece por ter mantido essa identidade dos livros da Jojo. E se você para pra pensar lá vem ela de novo com essas análises de capa tem algo de muito lindo nesse pássaro voando sozinho. Liberdade, saudade, empoderamento... quantas interpretações pra um desenho tão simples!

- Às vezes, Louisa, seguir em frente significa que temos que nos proteger. E talvez, no fundo, você tenha entendido isso.

A história te envolve com o drama dos personagens e, mais do que isso, te faz refletir sobre quantas vezes ficamos presos aos "e se" que a vida nos apresenta. Com a nossa ilusão de controle, queremos prever as outras possibilidades e nem sempre lidamos com isso de forma sábia. Fiquei tentada a julgar Louisa e me convenci de que faria diferente, mas não sei como reagiria em seu lugar. E arrisco a dizer que aprendi, ou no mínimo reforcei, algumas lições com ela. Lou e Jojo, obrigada por fazerem meus olhos marejarem - e isso pra mim é tocar fundo o coração.

Me dei conta de que ninguém é realmente livre. Talvez toda liberdade - física e pessoal - só viesse às custas de outra pessoa ou outra coisa.

Se Lou vai conseguir sua liberdade, só lendo pra descobrir. E torcendo pra que, quem sabe, Jojo resolva nos presentear com mais uma inesperada continuação.
Giulia Ladislau
26 anos. Filha do Rei. Carioca da gema. Aliança na mão esquerda. Pedagoga por formação, militar por profissão, revisora por paixão. Fascinada por livros desde quando nem se entendia por gente.

2 comentários

  1. "E aparece mais um personagem importantíssimo, que eu vou ter que me segurar desesperadamente pra não falar nada sobre, mas que foi uma baita surpresa e uma sacada genial da Jojo." Já comecei a me coçar de curiosidade ahushuahus adorei a resenha, mas ainda não sei se tô preparada para ler haha embora a vontade tenha aumentado depois das tuas palavras *-* adorei o trecho do pai da Lou e sobre a mãe dela \o

    Comecei a ler Inverno de Cinzas e fiquei muito deprê, resolvi interromper a leitura e ler chick lit e romance mais light para não sofrer tanto, mas agora fiquei curiosa e quase doida para sofrer de novo, rs.

    Beijos

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  2. oi flor, confesso que ainda não estou preparada! o livro tem uma proposta linda, mas ainda tenho as marcas de como eu era antes de você

    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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